Dica De Leitura

Morte Súbita - J.K Rowling - Nova Fronteira

segunda-feira, julho 28, 2014




Sinopse

O livro se passa em um vilarejo fictício da Inglaterra, Pagford. Já no início do livro Barry Fairbrother um integrante do concelho do vilarejo e uma pessoa muito querida por todos- morre, essa "morte súbita" muda completamente o cotidiano dos cidadãos. Já que o falecido deixou uma vacância (vaga) no concelho do vilarejo.
Lendo o livro descobrimos que a vacância não é simplesmente causada apenas pelo falecimento do Sr. Fairbrother, mas também por perdas de entes queridos, de emprego, de autoestima. E que as grandes questões do livro, como a eleição de um novo conselheiro ou as discussões sobre um bairro ou uma clínica para viciados, se tornam irrelevantes em um final muito emocionante e triste.



Leia o Primeiro Capítulo 




Domingo
Barry Fairbrother não estava com a mínima vontade de sair para jantar. Passou o fim de semana praticamente todo tendo que aguentar uma dor de cabeça latejante e lutando para redigir a matéria de capa do jornal local.
Na hora do almoço, porém, a sua esposa estava meio emburrada e sem dizer palavra, e Barry deduziu que o cartão que lhe mandou pelo aniversá- rio de casamento não havia conseguido atenuar o crime que ele cometeu passando a manhã inteira trancado no escritório. E, ainda por cima, escrevendo sobre Krystal, de quem Mary não gostava absolutamente, embora fingisse o contrário.
— Estava pensando em levá-la para jantar, Mary — mentiu ele, numa tentativa de quebrar o gelo.
— Dezenove anos, meninos! Dezenove anos, e a sua mãe nunca me pareceu tão linda...
Mary se desarmou e sorriu. Barry, então, ligou para o clube de golfe, que ficava perto de casa e onde conseguiriam uma mesa sem problemas. Tentava agradar a esposa com essas pequenas bobagens, porque chegara à conclusão, depois de quase duas décadas de convivência, de que geralmente a desapontava quanto às coisas mais importantes. Nunca de propó- sito. Simplesmente, os dois tinham noções muito diferentes com relação ao que devia ocupar mais espaço nas suas vidas.
Os quatro filhos do casal já tinham passado da idade de precisar de uma babá. Estavam vendo televisão quando se despediram dos pais pela última vez, e só Declan, o caçula, se virou para olhar para o pai e lhe deu um tchau com a mão.
A cabeça de Barry continuava latejando num ponto atrás da orelha quando ele saiu com o carro pelas ruas do lindo vilarejo de Pagford, onde moravam desde que tinham se casado. Seguiram pela Church Row, a ladeira íngreme onde as casas mais luxuosas se erguiam em toda a sua solidez e a sua extravagância vitoriana. Dobraram a esquina da igreja em estilo que imitava o gótico, onde tinham ido assistir à peça José e seu manto technicolor, em que as filhas gêmeas trabalharam, e cruzaram a praça de onde se via o esqueleto negro das ruínas da abadia que, do topo de uma colina, dominava a cidade, mesclando seus contornos ao céu violeta.
A única coisa em que Barry conseguia pensar ali, às voltas com o vo- lante do carro, navegando por aquelas curvas tão conhecidas, era nos erros que certamente havia cometido tentando terminar às pressas o artigo que acabava de enviar por e-mail para a Gazeta de Yarvil e Adjacências. Encan- tador e extrovertido pessoalmente, tinha a maior dificuldade em expressar a própria personalidade numa folha de papel.
O clube de golfe ficava a apenas quatro minutos da praça, pouco além do ponto em que o vilarejo ia se extinguindo num último suspiro de ve- lhos chalés. Barry estacionou a caminhonete diante do Birdie, o restaurante do clube, e ficou parado por um instante ao lado do veículo enquanto Mary retocava o batom. Achou gostoso sentir no rosto o arzinho frio da noite. Olhando os contornos do campo de golfe que iam se desintegrando na escuridão, ficou se perguntando por que continuava a ser sócio daquele clube. Era mau jogador: o seu swing era irregular, e o seu handicap, bem alto. Tinha tantas outras preocupações na vida... As pontadas na cabeça estavam cada vez mais fortes.
Mary desligou a luz interna e fechou a porta do carona. Barry apertou o botão da chave para acionar o alarme. Ouviu os saltos do sapato da mulher batendo no chão, o apito do sistema de segurança do carro, e se perguntou se o enjoo que sentia ia melhorar depois que comesse alguma coisa.
De repente, uma dor como jamais havia sentido antes atravessou o seu cérebro como se tivesse sido atingido por uma daquelas bolas de demolição. Mal sentiu os joelhos quando eles bateram no chão frio; o seu crânio estava inundado de fogo e sangue; a agonia era insuportável, mas precisou suportá-la, já que o desfalecimento só veio um minuto depois.
Mary gritou. E continuou gritando. Vários homens vieram correndo do bar. Um deles voltou às pressas lá para dentro para ver se algum dos mé- dicos aposentados que eram sócios do clube estava no local. Percebendo toda aquela comoção, um casal, que Barry e Mary conheciam, abandonou a refeição malcomeçada e correu para ver se podia ser de alguma ajuda. O marido pegou o celular e ligou para o serviço de emergência.
A ambulância tinha que vir de Yarvil, a cidade vizinha, e levou vinte e cinco minutos para chegar. Quando a luz azulada se aproximou piscando, Barry estava deitado numa poça do próprio vômito, imóvel e sem qualquer reação. Mary estava agachada ao seu lado, com a meia-calça rasgada nos joelhos, segurando a sua mão, aos prantos e sussurrando o seu nome.
Segunda-feira
I
— Coragem! — disse Miles Mollison, de pé na cozinha de um dos casa- rões da Church Row.
Esperou dar seis e meia da manhã para telefonar. A noite tinha sido terrível, cheia de longos períodos em claro pontuados por alguns momen- tos de um sono agitado. Às quatro da manhã, percebeu que a sua mulher também estava acordada e conversaram baixinho no escuro. Mesmo ali, enquanto os dois falavam sobre o que haviam sido obrigados a presen- ciar, cada qual tentando rechaçar vagos sentimentos de medo e choque, a simples ideia de dar a notícia ao seu pai provocava em Miles ondas de empolgação. Decidiu esperar até as sete horas, mas o medo de que alguém pudesse ser mais rápido o fez telefonar mais cedo. — O que houve? — indagou Howard, com aquele seu vozeirão que tinha um leve toque áspero. Miles ligou o viva-voz para Samantha poder ouvir a conversa. A mulher, vestida num robe rosa-claro, havia apro- veitado o fato de terem acordado cedo para passar mais um pouco de autobronzeador na pele de um moreno jambo, que já estava começando a recuperar a sua palidez habitual. A cozinha estava impregnada da mis- tura dos cheiros de café instantâneo e coco sintético.
— Fairbrother morreu. Foi ontem à noite, lá no clube de golfe. Sam e eu estávamos jantando no Birdie.
— Fairbrother morreu? — bradou Howard.
Pelo seu jeito de falar, dava para ver que ele esperava alguma mudança dramática no estado de Barry Fairbrother, mas que nem mesmo ele ima- ginara a sua morte.
— Ele caiu no estacionamento — disse Miles.
— Meu Deus! — exclamou Howard. — Ele tinha o quê, pouco mais de quarenta, não é? Meu Deus...
Miles e Samantha ouviam Howard respirar como um cavalo ofegante. Ele sempre tinha a respiração mais difícil pela manhã.
— O que foi? Coração?
— Parece que foi alguma coisa no cérebro. Acompanhamos Mary até o hospital e...
Mas Howard já não estava prestando atenção. Miles e Samantha ouvi- ram-no dizer, afastando o fone:
— Barry Fairbrother morreu! É Miles!
Os dois então tomaram uns goles de café esperando que ele voltasse. Quando Samantha se sentou à mesa da cozinha, o seu robe se entreabriu revelando os contornos dos seios grandes apoiados nos seus antebraços. Assim pressionados, eles pareciam mais cheios e suaves que quando pen- diam sem qualquer suporte. Da fenda entre eles, naquela pele crestada, surgiam umas linhas miúdas que já não desapareciam nem mesmo quan- do não havia pressão alguma. Mais jovem, ela fora usuária assídua das câmaras de bronzeamento artificial.
— O quê? — indagou Howard, voltando ao telefone. — O que você estava dizendo sobre o hospital?
— Sam e eu fomos na ambulância — disse Miles, falando com toda a clareza. — Com Mary e o corpo. Samantha percebeu que a segunda versão de Miles enfatizava o que se poderia chamar de aspecto mais comercial da história. Mas não o culpava por isso. A única recompensa que teriam com aquela terrível experiência era o direito de contar a todos o que tinha acontecido. Ela mesma achava que jamais se esqueceria daquilo: Mary chorando; os olhos de Barry ainda entreabertos, surgindo acima da máscara que parecia uma focinheira; ela e Miles tentando ler a expressão do paramédico; os solavancos naquele espaço reduzido; as janelas escuras; o terror.
— Meu Deus! — exclamou Howard pela terceira vez, ignorando o interrogatório de Shirley, com a atenção inteiramente voltada para Miles. — Ele simplesmente caiu morto no estacionamento?
— Exatamente — replicou Miles. — Assim que o vi tive a certeza de que não havia mais nada a fazer.
Foi a sua primeira mentira, e ele evitou olhar para a esposa quando disse aquilo. Ela se lembrava muito bem do seu braço grande e protetor sobre os ombros trêmulos de Mary: Ele vai ficar bom... Ele vai ficar bom...
Mas, afinal de contas, pensou Samantha, fazendo justiça ao marido, como saber se vai acontecer isso ou aquilo com aquela gente ali colocando máscaras e enfiando agulhas? Parecia que estavam tentando salvar Barry, e nenhum deles ficou sabendo que era tudo em vão até que a jovem médica veio andando na direção de Mary lá no hospital. Samantha ainda podia ver, com uma nitidez assustadora, o rosto vulnerável, petrificado de Mary e a expressão da moça de óculos, cabelo liso e jaleco branco: tranquila, embora um tanto cautelosa... Aquele tipo de coisa vive aparecendo nos seriados da televisão, mas quando é de verdade...
— De jeito nenhum — dizia Miles. — Gavin só jogava squash com ele às quintas-feiras.
— E, aparentemente, estava tudo bem com ele? — Claro! Ele arrasou com Gavin! — Meu Deus! Isso é para você ver, sabe? Para você ver... Espere um pouco, a sua mãe quer lhe dar uma palavrinha. Depois de uma pancada e de um outro barulhinho, ouviu-se a voz suave de Shirley na linha. — Que coisa horrível, Miles — disse ela. — Você está bem? Samantha foi tomar um gole de café, mas se atrapalhou um pouco: a bebida lhe escorreu pelos cantos da boca e ela enxugou o rosto e o peito com a manga do robe. Miles já estava com aquela voz que geralmente usava quando falava com a mãe: mais profunda que de costume, uma voz do tipo nada-me-abala, vigorosa e pragmática. Às vezes, especialmente quando bebia, Samantha imitava as conversas entre mãe e filho. “Não se preocupe, mamãe. Miles está aqui. O seu soldadinho.” “Você é maravilho- so, querido: tão grande, tão corajoso, tão inteligente.” Recentemente, ela tinha feito essa imitação uma ou duas vezes na frente de outras pessoas, deixando o marido chateado e na defensiva, embora fingisse achar graça. Da última vez, tiveram até uma briga no carro, voltando para casa.
— Vocês foram junto com Mary para o hospital? — indagou Shirley ao telefone.
Não, pensou Samantha. No meio do caminho ficamos de saco cheio e pedimos para saltar.
— Era o mínimo que podíamos fazer. Gostaria de poder ter feito mais. Samantha se levantou e foi até onde estava a torradeira. — Tenho certeza de que Mary ficou muito agradecida — disse Shirley. Samantha fez um barulhão pegando o pão e enfiando quatro pedaços nas fendas do aparelho. A voz de Miles já estava praticamente normal.
— Bom, quando os médicos vieram dizer... ou melhor, confirmar que ele estava morto, Mary quis chamar Colin e Tessa Wall. Sam ligou para eles. Esperamos até que chegassem e, só então, viemos embora.
— Que sorte a dela vocês estarem lá — disse Shirley. — Papai quer falar mais uma coisa, Miles. Vou passar o telefone para ele. Nos falamos mais tarde.
— Nos falamos mais tarde — murmurou Samantha, dirigindo-se à chaleira e balançando a cabeça. No reflexo distorcido, via o próprio rosto inchado, depois da noite em claro, e os olhos castanho-escuros estavam vermelhos. Na pressa de estar presente quando Miles desse a notícia a Howard, ela tinha se descuidado e passado a loção autobronzeadora nas pálpebras também.
— Por que você e Sam não vêm até aqui hoje à noite? — indagou Howard aos brados. — Não, espere aí...
Mamãe está dizendo que vamos jogar bridge com os Bulgen. Amanhã, então. Venham jantar. Lá pelas sete.
— Pode ser — disse Miles, dando uma olhada para a mulher. — Tenho que ver se Sam já marcou alguma coisa.
Ela não deu qualquer sinal indicando se queria ir ou não. Uma es- tranha sensação de anticlímax se espalhou pela cozinha quando Miles desligou.
— Eles não conseguem acreditar — observou ele, como se Samantha não tivesse ouvido a conversa toda. Comeram as torradas e tomaram uma caneca de café fresco em si- lêncio. Parte da irritabilidade de Samantha foi desaparecendo enquanto ela mastigava. Lembrou que tinha acordado sobressaltada, pulando da cama no quarto ainda escuro àquela hora da manhã, e que tinha se sen- tido absurdamente aliviada e agradecida por ver Miles ali ao seu lado, grandalhão e barrigudo, com cheiro de vetiver e ranço de suor. Depois, se imaginou contando aos fregueses da loja que um homem tinha caído morto bem na sua frente, e falando também da corrida desabalada na ambulância até o hospital. Pensou em várias maneiras de descrever os detalhes daquele trajeto e a cena apoteótica com a médica. A juven- tude daquela mulher tão segura de si fazia tudo aquilo parecer ainda pior. Eles tinham que encarregar alguém mais velho de dar uma notícia como aquela... Depois, para melhorar ainda mais o seu ânimo, lembrou que tinha um encontro com o representante de vendas da Champêtre no dia seguinte e que o sujeito tinha sido bem agradável, meio que fler- tando com ela por telefone.
— É melhor eu ir andando — disse Miles, tomando um último gole de café e com os olhos pregados no céu, que ia ficando mais claro do outro lado da vidraça. Soltou um profundo suspiro e deu uns tapinhas no ombro da mulher quando passou junto dela para levar a caneca e o prato vazios até a lava-louça. — Deus do céu! Isso faz a gente repensar um monte de coisas, não é mesmo? — disse ele. E saiu da cozinha balançando a cabeça com aquele cabelo curtinho que começava a ficar grisalho.
Às vezes, Samantha achava o marido absurdamente e cada vez mais idiota. De quando em quando, porém, gostava daquele seu ar pomposo exatamente como gostava, nas ocasiões mais formais, de usar chapéu. Afinal de contas, assumir um ar solene e um tanto nobre era a atitude mais adequada para aquela manhã. Terminou de comer a torrada e guardou as coisas do café da manhã aperfeiçoando mentalmente a história que pre- tendia contar à moça que trabalhava com ela.
II
— Barry Fairbrother morreu — exclamou Ruth Price, ofegante. Tinha subido o gélido caminho do jardim quase correndo para ter mais alguns minutos com o marido antes de ele sair para o trabalho. Nem parou para tirar o casaco na varanda: ainda de luvas e cachecol, entrou na cozinha onde Simon e os filhos adolescentes estavam tomando café. O marido ficou imóvel, com a torrada a caminho da boca, e, depois, tornou a botá-la no prato com uma lentidão teatral. Os dois garotos, ambos de uniforme, olharam para o pai e para a mãe, não muito interessados. — Acham que foi aneurisma — disse Ruth, ainda meio sem fôlego, tirando as luvas dedo a dedo, desenrolando o cachecol do pescoço e desabotoando o casaco. Era uma mulher magra, de cabelo castanho-escuro, com uns olhos cansados e melancólicos. Aquele uniforme de enfermeira todo azul lhe caía muito bem. — Foi lá no estacionamento do clube de golfe. Sam e Miles Mollison o levaram para o hospital. Depois, Colin e Tessa Wall chegaram...
Às pressas, foi até a entrada da casa para pendurar as suas coisas e voltou bem a tempo de responder à pergunta que Simon tinha feito aos gritos.
— O que é uma aneurisma? — Um aneurisma. É o rompimento de uma artéria no cérebro.
Com movimentos sempre rápidos, aproximou-se da chaleira, ligou o fogo e começou a limpar os farelos de pão espalhados pela bancada da pia e em torno da torradeira, falando sem parar.
— Deve ter tido uma hemorragia cerebral fortíssima. Coitadinha da mulher dele... Está absolutamente arrasada...
Abalada, Ruth ficou olhando a brancura irregular do seu gramado co- berto de geada, a abadia do outro lado do vale, aquele esqueleto que se erguia abrupto contra o céu de um rosa e de um cinza desbotados, a visão panorâmica que era a glória de Hilltop House e que se tinha da janela da sua cozinha. Pagford, que à noite não passava de um punhado de luzinhas piscando lá embaixo no escuro, estava agora emergindo à claridade gélida do sol. Ruth não via nada daquilo: a sua cabeça ainda estava no hospital, vendo Mary sair do quarto onde Barry estava deitado e de onde já haviam sido removidos todos aqueles aparelhos, tentativas inúteis de salvar a sua vida. A piedade de Ruth Price fluía mais espontânea e mais sincera com relação àqueles que acreditava serem como ela mesma. “Não, não, não, não”, gemia Mary, e aquela negação instintiva ecoou lá dentro de Ruth, porque a cena representava uma visão de si mesma em situação idêntica...
Mal conseguindo aguentar aquela lembrança, voltou os olhos para Si- mon. O cabelo castanho-claro do marido ainda era espesso, o seu porte era quase tão rijo quanto fora aos vinte anos, e as rugas nos cantos dos olhos ainda tinham lá o seu charme, mas, para Ruth, a retomada do tra- balho como enfermeira depois de uma longa pausa voltou a confrontá-la com as mil e uma maneiras pelas quais o corpo humano pode deixar de funcionar direito. Envolvia-se menos quando era mais moça; agora com- preendia a sorte que tinham de estar todos vivos.
— Não deu para fazer nada? — perguntou Simon. — Não podiam, sei lá, dar uns pontos?
Havia frustração na sua voz, como se achasse que a medicina tinha vindo, mais uma vez, atrapalhar tudo, recusando-se a fazer as coisas mais simples e óbvias.
Andrew estremeceu com um prazer selvagem. Ultimamente, vinha re- parando que o pai estava com mania de contestar a mulher: sempre que ela usava termos médicos, lá vinha ele com sugestões broncas, ignorantes. Hemorragia cerebral. Dar uns pontos. A sua mãe não se dava conta do que o marido estava fazendo. Como sempre, aliás. E Andrew continuou a comer o seu cereal, morrendo de ódio.
— Quando ele deu entrada no hospital já era tarde demais — replicou Ruth, pondo uns saquinhos de chá dentro do bule. — Ele morreu na am- bulância, pouco antes de chegarem.
— Que merda! — exclamou Simon. — Que idade ele tinha? Quarenta? Mas Ruth não estava prestando atenção.
— Paul — disse ela —, o seu cabelo está todo embaraçado na parte de trás. Você se penteou? Tirou uma escova da bolsa e a pôs na mão do filho caçula. — Ele não teve nenhum sintoma? Nada? — perguntou Simon, enquanto Paul escovava o cabelo rebelde. — Parece que vinha tendo dor de cabeça há uns dois dias. — Ah! — exclamou Simon, mastigando uma torrada. — E não deu bola? — Claro. Não achou que fosse nada grave. Simon engoliu a torrada. — Está vendo só? — disse ele, com ares de quem sabe das coisas. — Você precisa se cuidar. Ah, quanta sabedoria, pensou Andrew com o maior desprezo, quanta profundidade. Quer dizer que a culpa era toda de Barry Fairbrother se o cérebro dele tinha estourado... Seu babaca pretensioso, disse ele, xingando o pai alto e bom som dentro da própria cabeça.
— Ah, e por falar nisso — acrescentou Simon, apontando com a faca para o filho mais velho, ele vai começar a trabalhar. O nosso amigo Cara de Pizza.
Atônita, Ruth se voltou para o filho. As espinhas se destacavam, lívidas e lustrosas, no rosto todo vermelho do garoto, que olhava fixo para a tigela cheia daquela papa bege.
— É isso mesmo — prosseguiu Simon — Esse merdinha preguiçoso vai começar a ganhar algum dinheiro. Se quer fumar, tem que arcar com as próprias despesas. Acabou essa história de mesada.
— Andrew! — exclamou Ruth em tom de lamento. — Você não andou...?
— Andou, sim. Peguei ele lá no galpão de lenha — disse Simon, com uma expressão que destilava desprezo.
— Andrew!
— Da gente, ele não tem mais um tostão. Quer cigarro? Pois que com- pre... — provocou o pai.
— Mas tínhamos decidido... — principiou Ruth, chorosa. — Tínha- mos decidido... Os exames estão chegando...
— Pelo jeito como ele se ferrou no simulado, já vai ser uma sorte se conseguir passar. Talvez seja melhor passar antes pelo McDonald’s, para ir ganhando experiência — disse Simon, levantando-se, empurrando a cadeira, deliciando-se com a visão do filho sentado ali de cabeça baixa, deixando ver apenas o contorno do rosto inchado pela acne. — Porque nós é que não vamos ficar sustentando um repetente, viu, cara? É agora ou nunca!
— Ah, Simon — disse Ruth, em tom de reprovação.
— O que foi? — perguntou Simon, aproximando-se da mulher com passadas fortes. Ruth se encolheu de encontro à pia. A escova de plástico rosa caiu da mão de Paul. — Não vou ficar financiando o vício desse baba- ca! Que cara de pau, porra! Fumando lá na merda do meu galpão!
E bateu no próprio peito ao dizer a palavra “meu”. Ao ouvir o ruído surdo daquela pancada, Ruth fez uma careta.
— Quando tinha a idade desse merdinha, já trazia um salário para casa. Se ele quer fumar, que compre os seus próprios cigarros, certo? Certo?
O rosto de Simon estava agora a uns quinze centímetros do de Ruth. — Certo, Simon — disse ela bem baixinho. Parecia até que as entranhas de Andrew tinham se derretido. Menos de dez dias atrás, havia feito um juramento; será que tinha chegado a hora? Assim tão cedo? Mas o seu pai se afastou da sua mãe e saiu da cozinha, rumo à porta da rua. Ruth, Andrew e Paul ficaram ali, praticamente imóveis. Era como se tivessem prometido não se mexer na ausência dele.
— Encheu o tanque? — gritou Simon, como sempre fazia quando a mulher dava plantão no turno da noite.
— Enchi — respondeu ela, também gritando, louca por um pouco de leveza, de normalidade.
A porta da frente fez um barulho metálico e bateu.
Ruth tratou de se ocupar com o bule, esperando que aquele clima inflado murchasse até voltar às proporções normais. Só falou quando An- drew estava quase saindo da cozinha para ir escovar os dentes. — Ele está preocupado com você, Andrew. Com a sua saúde.
Preocupado o cacete! Esse babaca!
Mentalmente, Andrew rebatia com palavrões os palavrões que o pai dizia. Mentalmente, enfrentava Simon de igual para igual.
Em voz alta, para a mãe, disse: — Claro...
III
O Evertree Crescent era uma meia-lua de chalés dos anos 1930, que fi- cava a dois minutos da praça principal de Pagford. No número trinta e seis, numa casa alugada há muito mais tempo que qualquer outra da rua, Shirley Mollison estava na cama, recostada nos travesseiros, tomando o chá que o marido havia lhe trazido. O reflexo que a encarava das portas espelhadas do armário embutido era um tanto esfumado, o que se devia em parte ao fato de ela não estar de óculos, em parte à claridade branda que penetrava no quarto através das cortinas com estampa floral. A essa luz lisonjeira, enevoada, o rosto enrugado, em tons de rosa e branco, que surgia sob o cabelo curto bem grisalho era como o de um querubim. No quarto, mal cabiam a cama de solteiro de Shirley e a de casal de Howard, juntas, meio entulhadas, como gêmeas não idênticas. O colchão de Howard, que ainda trazia a vigorosa marca do seu corpo, estava vazio. Dava para ouvir o barulhinho do chuveiro dali de onde Shirley e o seu reflexo rosado estavam sentados, uma defronte do outro, saboreando a notícia que ainda parecia efervescer no ar como champanhe borbulhante.
Barry Fairbrother tinha morrido. Batido as botas. Acabado. Nenhum acontecimento de importância nacional, nem guerra, nem crise do mer- cado financeiro ou ataque terrorista teria sido capaz de deixar Shirley naquele estado de espanto, de ávido interesse e de especulação febril que agora a consumia. Detestava Barry Fairbrother. Ela e o marido, que em geral concorda- vam inteiramente quanto a amizades e inimizades, divergiam um pouco nesse caso. Por vezes, Howard se confessou cativado pelo homenzinho barbudo que lhe fazia uma oposição tão ferrenha nas mesas compridas e arranhadas do salão da igreja. Ela, porém, não fazia diferença alguma entre o aspecto político e o pessoal. Barry tinha enfrentado Howard naquilo que o seu marido mais desejou na vida, o que bastou para fazer dele, aos olhos de Shirley, o pior dos inimigos.
A lealdade ao marido era o principal motivo daquela aversão apaixonada, mas não o único. Os instintos de Shirley com relação às pessoas eram apuradíssimos numa única direção, como um cachorro treinado para farejar drogas. Estava sempre pronta para detectar condescendência, e há muito havia sentido o seu cheiro nas atitudes de Barry Fairbrother e dos seus comparsas no Conselho. Os Fairbrother da vida partiam do pressuposto de que, por terem formação universitária, eram melhores que pes- soas como ela e Howard; que as suas opiniões eram mais importantes. Pois bem, a sua arrogância tinha sofrido um duro golpe hoje. A morte súbita de Fairbrother veio reforçar uma convicção que Shirley nutria há tempos: independentemente do que ele e os seus seguidores pudessem pensar, Fairbrother sempre foi uma criatura inferior ao seu marido, e mais fraca, pois Howard, além de todas as outras virtudes que possuía, tinha consegui-do sobreviver a um ataque cardíaco sete anos atrás.
(Em momento algum Shirley achou que Howard fosse morrer, nem mesmo quando ele estava na sala de cirurgia. Para ela, a presença de Howard neste mundo era um fato inquestionável, como a luz do sol e o oxigênio. Disse isso inúmeras vezes, depois desse episódio, quando amigos e vizinhos falavam de gente que escapava como que por milagre, da sorte que tinham por contar com uma unidade cardiológica assim tão pertinho, em Yarvil, e comentavam como ela devia ter ficado terrivelmente preocupada. — Sempre soube que ele ia se safar — dizia ela, na maior tranquilida- de. — Nunca duvidei disso. E lá estava ele, tão saudável como sempre, ao passo que Fairbrother estava no necrotério. Dito e feito.)
No entusiasmo daquelas primeiras horas da manhã, Shirley se lembrou do dia seguinte ao nascimento do filho Miles. Tinha se sentado na cama, anos e anos atrás, exatamente como estava agora, com a luz entrando pela janela da enfermaria, segurando uma xícara de chá que alguém tinha preparado para ela, esperando que lhe trouxessem o seu lindo bebê para mamar. Nascimento e morte: era a mesma consciência de existência iluminada e do destaque da sua própria importância. A notícia da morte súbita de Barry Fairbrother jazia no seu colo como um recém-nascido rechonchudo a ser exibido para todos os seus conhecidos. E ela seria a fonte, por ter sido a primeira, ou quase, a ficar sabendo.
Nada daquele prazer que fervia e borbulhava dentro dela tinha se manifestado enquanto Howard estava no quarto. Antes de ele ir tomar banho, os dois se limitaram a fazer os comentários adequados nesses casos de morte súbita. É claro que, enquanto ficaram passando aquelas palavras e frases-padrão de um lado para o outro, como se fossem as contas de um ábaco, Shirley sabia perfeitamente que o marido devia estar tão perto do êxtase quanto ela própria. No entanto, expressar tais sentimentos em voz alta, quando a notícia da morte ainda estava fresquinha, pairando ali no ar, teria sido praticamente como dançar nu e gritar obscenidades, e tanto Howard quanto Shirley estavam sempre envergando uma camada invisível de decoro da qual nunca se desfaziam.
De repente, outra ideia feliz lhe passou pela cabeça. Shirley deixou a xícara e o pires na mesinha de cabeceira, levantou da cama, vestiu o robe de chenile, pôs os óculos e saiu descalça pelo corredor para bater à porta do banheiro.
— Howard?
A resposta foi um som interrogativo que suplantou o ruído regular do chuveiro.
— Acha que eu devia postar alguma coisa no site? Sobre Fairbrother?
— Boa ideia — gritou ele, lá de dentro, depois de refletir por um instante. — Excelente ideia.
E lá se foi a mulher para o escritório. O cômodo havia sido antes o menor quarto da casa e estava vazio há tempos, desde que a sua filha Patricia foi para Londres e raras vezes voltou a ser mencionada. Shirley se orgulhava imensamente das suas habilidades na internet. Tinha feito um curso noturno em Yarvil, dez anos atrás, sendo uma das alunas mais velhas da turma e a mais lenta. Mesmo assim, perseverou, decidida a ser a administradora do novo site do Conselho Distrital de Pagford, que estava empolgando a todos. Fez o login e abriu a página da instituição.
A breve declaração saiu com tanta facilidade que parecia até que os seus dedos estavam redigindo aquilo por conta própria.
Conselheiro Barry Fairbrother É com grande pesar que comunicamos o falecimento do conselheiro Barry Fairbrother. Voltamos os nossos pensamentos para a sua família nesse momento tão difícil.
Releu as poucas frases com todo o cuidado, teclou “Enter” e viu o texto aparecer na área de mensagens.
A Rainha mandou que a bandeira fosse hasteada a meio mastro no Palácio de Buckingham quando a princesa Diana morreu. Sua Majestade ocupava um lugar bem especial na vida interior de Shirley. Contemplando a mensagem ali na tela, ficou satisfeita e feliz por ter feito a coisa certa. Seguir o exemplo dos melhores...
Saiu da área de mensagens da página do Conselho e entrou no seu site de medicina favorito.
Escrupulosamente, digitou as palavras “cérebro” e “morte” na caixa de pesquisa.
Havia inúmeras sugestões. Shirley foi passando aquelas diversas possi- bilidades, com os olhos plácidos percorrendo as páginas de alto a baixo, perguntando-se a qual daquelas condições fatais, algumas de nomes im- pronunciáveis, devia a felicidade que sentia agora. Tinha adquirido algum interesse por assuntos médicos desde que começou a trabalhar como voluntária no Hospital Geral South West e, às vezes, chegava mesmo a fazer diagnósticos para os amigos.
Mas hoje de manhã era impossível se concentrar naquelas palavras compridas e naqueles sintomas: a sua cabeça só pensava em continuar a espalhar a notícia, e, a essa altura, ela já estava reunindo e remanejando toda uma lista de números de telefone. Será que Aubrey e Julia já estavam sabendo? E o que diriam? Será que Howard deixaria que ela desse a notí- cia a Maureen ou ia querer ter ele mesmo esse prazer?
Tudo aquilo era imensamente empolgante.
IV
Andrew Price fechou a porta da casa, que era pequena e branca, e foi atrás do irmão, descendo a rampa do jardim, que hoje estalava por causa do gelo, e que ia dar no portão de metal gelado além do qual ficava a rua. Nenhum dos garotos se dignou a olhar para a vista já tão conhecida que se estendia mais abaixo: o minúsculo vilarejo de Pagford encravado no espaço contido entre três colinas, uma das quais encimada pelo que restava da abadia do século XII. Um riozinho estreito serpenteava ao pé da colina e cortava o vilarejo, onde era atravessado por uma ponte de pedra que parecia até de brinquedo. Aquilo tudo era tão sem graça quanto um cenário pintado para os dois irmãos. Andrew achava o fim do mundo o jeito como o seu pai, nas raras ocasiões em que recebiam visitas, parecia se vangloriar da paisagem, como se ele próprio a tivesse planejado e construí- do. Recentemente, o garoto percebera que preferiria mil vezes um cenário de asfalto, janelas quebradas e grafites. Sonhava com Londres e com uma vida que fizesse algum sentido.
Os dois irmãos foram andando até o fim da rua e pararam na esquina da estrada mais larga. Andrew enfiou a mão pelos arbustos da cerca viva, tateou por alguns instantes e tirou dali um maço de Benson & Hedges pela metade e uma caixa de fósforos ligeiramente úmida. Depois de algu- mas tentativas inúteis, já que a cabeça do fósforo se desmanchava sempre que ele riscava um, o garoto conseguiu acender o cigarro e deu duas ou três tragadas profundas. O ruído do motor do ônibus escolar veio romper aquela quietude. Com todo o cuidado, Andrew apagou o cigarro e enfiou o que tinha sobrado no maço. Quando chegava àquela esquina de Hilltop House, o ônibus já vinha trazendo dois terços dos seus ocupantes, pois passava antes pelas fazendas e pelas casas dos arredores. Como sempre, os dois irmãos sentaram em lugares separados, cada um deles com um assento vago ao seu lado, e se viraram para olhar pela janela enquanto o veículo ia descendo, ruidoso e cambaleante, a caminho de Pagford. Ao pé da colina onde moravam, havia uma casa com um jardim trian- gular. Em geral, os quatro Fairbrother ficavam esperando no portão da frente, mas hoje não tinha ninguém ali. Todas as cortinas estavam fecha- das. Por que será que as pessoas têm o hábito de ficar sentadas no escuro quando alguém morre?, perguntou-se Andrew.
Umas semanas atrás, ele tinha saído com Niamh Fairbrother, uma das filhas gêmeas de Barry, para ir a uma festa no auditório da escola. Depois disso, a garota passou um tempo com a mania de andar atrás dele. Os pais de Andrew mal conheciam os Fairbrother. Aliás, Simon e Ruth pra- ticamente não tinham amigos, mas pareciam simpatizar um pouquinho com Barry, que tinha sido gerente da minúscula filial do único banco que ainda resistia no vilarejo. Vira e mexe, o sobrenome Fairbrother aparecia ligado a coisas como o Conselho Distrital, peças encenadas no teatro local e a corrida anual da igreja. Mas Andrew não se interessava a mínima por esses assuntos, e os seus pais também não participavam de nada disso, a não ser comprando uma rifa vez por outra.
Quando o ônibus virou à esquerda e começou a descer a Church Row, passando pelos casarões vitorianos que iam formando uns patamares ladeira abaixo, Andrew se deu ao luxo de criar toda uma fantasia em que seu pai caía morto, atingido pelos disparos de um atirador invisível. O rapaz se via dando uns tapinhas nas costas da mãe, que soluçava, e telefonando para a funerária. Cigarro na boca, encomendava o caixão mais barato que existia.
Os três Jawanda — Jaswant, Sukhvinder e Rajpal — pegaram o ônibus no final da Church Row. Andrew tinha feito questão de escolher um lugar atrás de um banco vazio e torceu para que Sukhvinder viesse sentar à sua frente, não pela garota (Bola, o seu melhor amigo, a chamava de P&B, for- ma reduzida de “Peito & Bigode”), mas porque Ela quase sempre escolhia sentar ao lado de Sukhvinder. E fosse porque os seus poderes telepáticos estivessem particularmente afiados naquela manhã ou por qualquer outro motivo, Sukhvinder veio mesmo se sentar no banco da frente. Radiante, Andrew ficou olhando para o vidro sujo da janela e ajeitou bem a mochila no colo para esconder a ereção provocada pelos solavancos regulares do ônibus.
A sua ansiedade ia aumentando a cada novo sacolejar, enquanto o veículo grandalhão abria caminho pelas ruelas estreitas, fazendo curvas fechadas para contornar a praça do vilarejo e rumando para a esquina da rua Dela.
Andrew nunca tinha sentido um interesse assim tão grande por uma garota. Ela tinha acabado de chegar. Que hora estranha para mudar de escola: no último trimestre, já tão perto dos exames finais... Chamava-se Gaia, um nome perfeito, pois o garoto nunca o tinha ouvido antes, assim como nunca tinha visto alguém como ela. Pegou o ônibus, certa manhã, parecendo uma simples declaração dos píncaros sublimes que a natureza pode alcançar, e veio sentar dois bancos à sua frente. E ele ficou fascina- do, olhando para a perfeição daqueles ombros e da parte de trás daquela cabeça.
O seu cabelo comprido, de um castanho-acobreado, descia em ondas largas e lhe batia pouco abaixo dos ombros; o nariz, absolutamente cer- tinho, era pequeno e fino, destacando ainda mais a boca clara, de lábios cheios, provocadores; os olhos, bem separados, com cílios espessos, eram de um castanho-claro com umas manchinhas esverdeadas, lembrando uma daquelas maçãs golden. Andrew nunca a tinha visto maquiada, e a sua pele não tinha nenhuma mancha ou sarda. O rosto de Gaia era uma síntese de perfeita simetria e proporção fora do comum; podia passar horas e horas olhando para ela, tentando descobrir por que era tão fascinante... Ainda na semana passada, ele voltou para casa depois de dois tempos de aula de biologia, quando, por uma divina disposição aleatória de carteiras e de cabeças, conseguiu olhar para a garota quase o tempo todo. Mais tarde, a salvo no seu quarto, escreveu (depois de meia hora olhando para a parede e de um tempo se masturbando) “beleza é geometria”. Rasgou a folha de papel imediatamente e, sempre que se lembrava disso, sentia-se um idiota. Mesmo assim, não deixava de ser verdade. A beleza de Gaia era uma questão de pequenos ajustes com relação a um padrão, e dessa operação resultava uma harmonia de tirar o fôlego!
Ela ia entrar no ônibus a qualquer momento e, se viesse sentar ao lado daquela chata e mal-humorada da Sukhvinder, como geralmente fazia, ia ficar tão perto que poderia até sentir que ele cheirava a nicotina. Andrew gostava de ver objetos inanimados reagirem ao corpo dela; gostava de ver o assento do banco ceder um pouco quando Gaia atirava o seu peso sobre ele, e adorava ver aquela massa castanha-acobreada fazer uma curva ao encostar na barra de ferro do alto do banco.
O motorista reduziu a velocidade, e Andrew desviou os olhos da porta, fingindo estar perdido em pensamentos. Só ia olhar depois que ela en- trasse, como se tivesse acabado de perceber que o ônibus havia parado. Aí, sim, olharia para ela; talvez até a cumprimentasse com um aceno de cabeça. Ficou esperando ouvir as portas se abrindo, mas a vibração suave do motor não foi interrompida por aquele barulho tão conhecido.
Andrew olhou então pela janela e não viu nada além da Hope Street, uma rua pequena e feiosa, com duas fileiras de casinhas geminadas. O motorista se inclinou para a frente, buscando ver se a garota estaria vindo. O garoto teve vontade de mandar que ele esperasse, já que, ainda na sema- na passada, ela saiu às pressas de uma daquelas casinhas e veio correndo pela calçada (pôde observar a cena sem problemas porque todos ali dentro também estavam olhando). A visão de Gaia correndo era o bastante para ocupar os seus pensamentos por horas a fio, mas o motorista manejou o grande volante e o ônibus seguiu o seu caminho. Andrew voltou a olhar o vidro sujo da janela, sentindo uma dor no coração e no saco.
V
No passado, a Hope Street havia sido uma vila operária. No banheiro da casa de número dez, Gavin Hughes se barbeava lentamente, com um cuidado desnecessário. Ele era tão claro e tinha uma barba tão rala que esse ritual só precisava mesmo ser feito duas vezes por semana. Mas aquele banheiro gelado e meio sujo era o seu único refúgio. Se ficasse enrolando ali dentro até as oito horas, poderia perfeitamente dizer que precisava sair correndo para o trabalho. Estava morrendo de medo de ter de conversar com Kay.
Ontem à noite, conseguiu evitar qualquer conversa começando a tran- sa mais longa e criativa que os dois haviam tido desde os primeiríssimos dias da relação. Kay reagiu imediatamente e com um entusiasmo que chegava a dar nervoso: passava de uma posição a outra; abria as pernas fortes e roliças; contorcia-se como uma acrobata eslava, o que ela aliás bem poderia ser, com aquela pele dourada e o cabelo escuro cortado bem curtinho. Já era tarde demais quando Gavin percebeu que ela estava inter- pretando aquela sua atitude tão pouco usual como uma confissão tácita de tudo aquilo que ele estava decidido a não dizer. Ela o beijou com avidez. Quando começaram a ficar juntos, ele achou os seus beijos molhados e profundos muito eróticos; agora, achava-os levemente repulsivos. Demo- rou muito para chegar ao clímax, pois o horror que sentia pelo que havia começado estava sempre ameaçando atrapalhar a sua ereção. E até isso acabou conspirando contra ele: Kay pareceu considerar aquele vigor nada comum uma verdadeira demonstração de virtuosismo.
Quando enfim terminaram, ela se aninhou bem junto dele, no escuro, e acariciou os seus cabelos por alguns instantes. Infeliz, Gavin ficou só olhando para o nada, consciente de que, depois de fazer tantos planos va- gos para afrouxar aquelas amarras, tinha acabado por reforçá-las involuntariamente. Kay adormeceu, e ele ficou ali deitado, com um dos braços preso sob o corpo dela, sentindo a desagradável sensação do lençol úmido grudando na sua coxa, naquele velho colchão de molas todo irregular. Tudo o que queria era ter coragem de ser um filho da puta, sair de fininho e nunca mais voltar.
O banheiro de Kay tinha cheiro de mofo e esponjas molhadas. Havia um bolinho de cabelos num dos cantos da pequena banheira. A tinta das paredes estava descascando.
— Isso está precisando de uma obra — disse ela.
Gavin teve o cuidado de não se oferecer para ajudar. As coisas que não tinha lhe dito eram o seu talismã, a sua salvaguarda. Armazenou todas elas na cabeça e vivia repassando aquilo tudo, como se desfiasse as contas de um rosário. Nunca tinha dito a palavra “amor”. Nunca tinha falado em casamento. Nunca tinha lhe pedido que fosse morar em Pagford. Apesar de tudo, porém, ela estava ali e, sabe-se lá como, fazia com que ele se sentisse responsável.
O seu rosto também o encarou do espelho manchado. Tinha umas sombras arroxeadas debaixo dos olhos, e o cabelo louro que começava a rarear estava quebradiço e ressecado. A lâmpada sem luminária que pen- dia do teto iluminava aquele rosto frágil e comprido com uma crueldade fria e meticulosa.
Trinta e quatro anos, pensou ele, e pareço ter no mínimo uns quarenta.
Ergueu a lâmina e, com todo o cuidado, raspou aqueles dois pelos mais grossos que nasciam de ambos os lados do seu proeminente pomo de adão. Esmurraram a porta. A mão de Gavin escorregou, e o sangue come- çou a escorrer do seu pescoço magro, indo manchar a camisa branca limpinha. — O seu namorado ainda tá no banheiro — berrou uma voz feminina.
— Vou chegar atrasada! — Já acabei! — gritou o rapaz. O corte estava doendo, mas e daí? Agora tinha uma desculpa perfeita:
Veja só o que a sua filha fez! Vou ter que dar um pulinho em casa para tro- car de camisa antes de ir para o trabalho. Quase contente, passou a mão na gravata e no paletó que tinha pendurado no cabide atrás da porta e abriu o ferrolho.
Gaia entrou às pressas, bateu a porta e a trancou, visivelmente furio- sa. Parado ali no minúsculo patamar, de onde se sentia um cheiro de borracha queimada, Gavin se lembrou da cabeceira da cama batendo na parede na noite anterior, dos rangidos do móvel de pinho vagabundo, dos gemidos e dos gritos de Kay. Às vezes chegava a esquecer que a filha dela estava em casa...
Desceu correndo. Kay disse que estava planejando mandar lixar e lustrar aquela escada sem carpete, mas ele duvidava muito que ela pusesse esse plano em prática... O apartamento dela em Londres era bem caído e em péssimo estado de conservação. De qualquer forma, Gavin estava convencido de que a moça pretendia ir morar com ele logo, logo, coisa que não ia permitir. Aquele era o último bastião, e nesse ponto, se preciso fosse, ia resistir com todas as suas forças.
— O que aconteceu? — gritou ela, vendo a mancha de sangue na camisa. Estava usando aquele quimono vermelho vagabundo que Gavin tanto detestava, mas que lhe caía muito bem.
— Gaia esmurrou a porta e me assustei. Tenho que passar em casa para trocar de camisa.
— Ah, mas já preparei o seu café! — replicou ela mais que depressa.
Gavin se deu conta de que o tal cheiro de borracha queimada vinha, na verdade, dos ovos mexidos. Eles pareciam anêmicos e cozidos demais.
— Não dá, Kay. Preciso trocar de camisa. Logo cedo, tenho... Mas a moça já estava pondo aquela maçaroca nos pratos. — Cinco minutos não vão fazer diferença... No bolso do paletó, o celular tocou bem alto, e ele o pegou imediatamente perguntando-se se teria a sorte de poder alegar algum chamado urgente. — Meu Deus! — exclamou, genuinamente horrorizado. — O que foi? — Barry. Barry Fairbrother! Ele... Que merda! Ele... morreu! É uma mensagem de Miles. Meu Deus! Que merda, meu Deus! Kay soltou a colher de pau. — Quem é Barry Fairbrother? — Um cara com quem jogo squash. Ele só tinha quarenta e quatro anos! Meu Deus! Leu mais uma vez a mensagem. Kay ficou olhando, sem entender nada. Sabia que Miles era sócio de Gavin no escritório de advocacia, mas ela nunca tinha sido apresentada a ele. Para ela, Barry Fairbrother era apenas um nome.
Ouviu-se um barulhão vindo lá da escada: era Gaia, descendo a toda.
— Ovos! — exclamou a garota, parada na porta da cozinha. — Toda manhã é a mesma coisa! Não, obrigada. E, graças a ele — acrescentou, lançando um olhar furioso para a nuca de Gavin —, com certeza já perdi a droga do ônibus.
— Bom, se não ficasse tanto tempo se penteando... — gritou Kay para a filha, que já estava indo embora. Gaia nem respondeu. Disparou pelo corredor, esbarrando nas paredes com a mochila, e saiu batendo a porta da frente.
— Tenho que ir, Kay — disse Gavin. — Mas já está tudo pronto. Você pode tomar o seu café antes... — Preciso trocar de camisa. E... Merda! Fui eu que preparei o testamento de Barry. Vou ter que cuidar disso. Não, sinto muito, mas preciso ir mesmo. Não dá para acreditar — acrescentou, relendo a mensagem de Miles. — Não dá para acreditar. Nós dois jogamos squash nessa quinta-feira agora! Não dá... Meu Deus!
Um homem tinha morrido. Não havia nada que ela pudesse dizer; não sem acabar se sentindo culpada. Gavin deu um beijo rápido naquela boca que não reagiu e foi embora, atravessando o corredor estreito e escuro.
— Vamos nos ver...? — Ligo mais tarde — gritou ele, fingindo que não tinha ouvido nada. Atravessou a rua correndo para pegar o carro, engolindo aquele ar gélido e levando na cabeça a ideia da morte de Barry como se fosse um frasco de algum líquido volátil que ele não ousava sacudir. Quando virou a chave na ignição, pensou nas gêmeas de Barry chorando, deitadas de bruços na cama-beliche. Já as tinha visto deitadas ali, uma em cima, a outra embai- xo, jogando Nintendo DS, quando passou pela porta do quarto na última vez que tinha ido jantar lá.
Os Fairbrother eram o casal mais unido que jamais vira. Nunca volta- ria a comer naquela casa. Vivia dizendo a Barry que ele era um homem de sorte. Mas, pelo visto, nem tanto...
Alguém vinha pela calçada na sua direção; apavorado, achando que fosse Gaia vindo brigar com ele ou lhe pedir carona, deu marcha a ré com tanta pressa que bateu no carro estacionado atrás: era o velho Vauxhall Corsa de Kay. Quando a tal pessoa chegou diante da janela do carro, Ga- vin viu que era uma velha esquálida e meio manca com uns chinelinhos de pano. Suando, girou o volante e saiu em disparada. Enquanto pisava no acelerador, deu uma olhada pelo retrovisor e viu Gaia entrando de volta na casa de Kay.
Não estava conseguindo pôr ar suficiente nos pulmões. Sentia um aperto no peito. Só então percebeu que Barry Fairbrother era o seu melhor amigo.
VI
O ônibus chegou a Fields, o bairro que crescia nos arredores da cidade de Yarvil. Eram umas casas de um cinza sujo, algumas com iniciais e obsce- nidades pichadas na fachada. Aqui e ali, uma janela vedada com tábuas; várias antenas parabólicas e mato crescido: nada que merecesse, por parte de Andrew, mais atenção do que ele dedicava às ruínas da abadia de Pag- ford reluzindo com os cristais de gelo. De início, o garoto havia ficado intrigado e intimidado por aquele bairro popular, mas há muito que a familiaridade tinha transformado tudo aquilo em algo banal.
As calçadas estavam repletas de crianças e adolescentes a caminho da escola, muitos usando só camisetas, apesar do frio. Andrew avistou Krystal Weedon. Lá ia ela, saltitante, dando gargalhadas escandalosas, no meio de um grupo de adolescentes de ambos os sexos. Tinha vários brincos em cada orelha, e, por cima do cós da calça de moletom usada bem abaixo da cintura, dava para ver perfeitamente o elástico da calcinha. Andrew conhecia Krystal desde a escola primária, a garota protagonizou várias das mais vivas lembranças da sua infância. Um dia, por exemplo, ela voltou do recreio com o uniforme molhado e os meninos começaram a gritar: “Krystal fez xixi! Krystal fez xixi!” Em vez de chorar, como fariam quase todas as meninas, a garotinha de cinco anos entrou na dança, rindo e gritando também: “Krystal fez xixi!” Então, baixou a calça, na frente da turma toda, e fingiu que estava fazendo mesmo. Andrew tinha a nítida lembrança daquela vulva rosada e sem pelos. Parecia até que o Papai Noel tinha se materializado no meio da turma. E ele também lembrava que a srta. Oates, vermelha como um pimentão, foi levando a menina para fora da sala.
Quando tinha uns doze anos e foi para a escola secundária, Krystal já era a garota mais desenvolvida da sua série. Um dia, ficou lá no fundo da sala, onde os alunos deviam deixar o exercício de matemática já feito e pegar a nova folha. Como tudo aquilo começou, Andrew (um dos últi- mos a acabar o exercício, como sempre) não fazia a mínima ideia, mas, quando chegou perto das pastas que continham as folhas de exercícios, cuidadosamente empilhadas em cima dos armários que ficavam lá atrás, viu que Rob Calder e Mark Richards estavam se revezando para segurar e apertar os seios da garota. A maioria dos outros garotos estava só olhando, eletrizada, com o rosto escondido atrás do livro posto de pé em cima da carteira; já as garotas, muitas delas vermelhas de vergonha, fingiam que não estavam vendo nada. Andrew percebeu que metade dos alunos da turma já tinha tido a sua vez e que todos esperavam que ele entrasse na brincadeira, coisa que queria e não queria fazer. Não eram os peitos de Krystal que o assustavam, mas o ar ousado, desafiador que havia no rosto da garota... Ficou morrendo de medo de fazer tudo errado. Quando o sr.
Simmonds, o professor desligado e ineficaz, finalmente ergueu os olhos e disse “Vai ficar aí para sempre, Krystal? Pegue logo um exercício e volte para o seu lugar”, Andrew sentiu um alívio quase absoluto.
Embora andassem com pessoas diferentes há muito tempo, continua- vam a ser da mesma turma na escola, portanto Andrew sabia que Krystal só aparecia nas aulas de vez em quando, faltava muito e estava quase sempre metida em alguma confusão. Não sabia o que era medo, como os garotos que chegavam à escola com tatuagens que eles próprios ha- viam feito, lábios cortados, cigarros e mil casos de drogas, de sexo fácil e de confrontos com a polícia.
A Escola Winterdown ficava bem no centro de Yarvil. Era um prédio grande e feio, de três andares, com uma fachada cheia de janelas interca- ladas com painéis pintados de azul-turquesa. Quando as portas do ônibus se abriram, Andrew se juntou aos grupos cada vez maiores de gente usan- do blazers pretos e suéteres que cruzavam o estacionamento, dirigindo-se às duas entradas principais. Já chegando ao afunilamento que se formava para passar pela porta de duas folhas, reparou num Nissan Micra que vinha parando e se afastou daquela massa para esperar pelo melhor amigo.
Fofo, Elefa, Wally, Wallah, Gordo, Bolota, Bola: ninguém naquela escola tinha mais apelidos que Stuart Wall. O seu jeito de andar, com umas passadas bem largas, a sua magreza, o rosto fino e chupado, as orelhas avantajadas e um ar de eterno sofrimento já bastariam para fazer dele um sujeito bem diferente dos demais. Mas eram o seu humor sarcástico, o seu ar distante e a sua pose que faziam dele um caso à parte. Sabe-se lá como, Stuart sempre conseguia se desvincular de qualquer coisa que se poderia definir como um caráter menos flexível, desvencilhando-se do embaraço de ser filho de um vice-diretor muito impopular e ridicularizado, e de ter uma mãe que, além de gorda e cafona, era a orientadora educacional da escola. Stuart era acima de tudo e exclusivamente ele mesmo: Bola, cele- bridade e ponto de referência na Winterdown. Até os alunos lá de Fields riam das suas piadas e, diante da frieza e da crueldade com que o garoto retribuía qualquer deboche, raramente se davam o trabalho de fazer gozações com os seus infelizes laços familiares.
Nesta manhã, a confiança de Bola permaneceu intacta quando, na frente daquelas hordas libertas dos pais que passavam pelo pátio, teve de saltar do Nissan em companhia não apenas da mãe, mas também do pai, que, em geral, vinha para a escola em horário diferente. Enquanto Bola trotava na sua direção, Andrew voltou a se lembrar de Krystal Weedon com a calcinha aparecendo.
— Tudo certo, Arf? — perguntou o recém-chegado. — Oi, Bola. Foram se juntar à multidão, com as mochilas penduradas no ombro, dando uns encontrões nas crianças menores, abrindo algum espaço no seu rastro.
— Pombinho andou chorando — disse Bola, enquanto iam subindo as escadas abarrotadas de alunos.
— O quê? — Barry Fairbrother morreu ontem à noite. — É, fiquei sabendo — replicou Andrew. Bola lhe deu aquela olhada de esguelha que adotava quando outras pessoas tentavam se mostrar, fingindo que sabiam mais do que efetiva- mente sabiam, que eram mais do que efetivamente eram.
— A minha mãe tava no hospital quando trouxeram ele — acrescen- tou Andrew, irritado. — Ela trabalha lá, lembra?
— Ah, claro — disse Bola, já sem aquele ar desconfiado. — Bom, sabe que Pombinho e ele tinham um caso... E é Pombinho que vai dar a notí- cia. A coisa vai ficar feia, Arf.
No alto da escada, os amigos se separaram, e cada um foi para uma sala. Quase todos os colegas de Andrew já estavam lá dentro, sentados nas carteiras, balançando as pernas, ou apoiados nos armários que ficavam nas paredes laterais. As mochilas estavam debaixo das cadeiras. Como sempre, nas segundas de manhã, o falatório era mais alto e descontraído que de costume, porque, quando desse o sinal, iam sair da sala e atravessar o pátio para chegar ao ginásio de esportes. A professora estava sentada à sua mesa, assinalando a presença de quem ia entrando. Ela nunca se dava o trabalho de fazer a chamada: esse era um dos tantos expedientes que usava para tentar cativar a turma, e os alunos a desprezavam por isso.
Krystal chegou quando o sinal tocou.
— Tô aqui, fessora! — gritou lá da porta e voltou a sumir. Todos a seguiram, falando sem parar. Andrew e Bola se encontraram no alto da escada e, no meio daquela multidão, saíram pela porta dos fundos e foram andando até o outro lado do imenso pátio de cimento cinza.
O ginásio de esportes cheirava a suor e a tênis usado. O tumulto pro- vocado por mil e duzentos adolescentes que não paravam de falar ecoou pelas paredes caiadas. Um tapete grosso, cinza-chumbo, todo manchado, cobria o chão e trazia, em diferentes cores, os traçados das quadras de badminton e de tênis, os gols do hóquei e do futebol. Aquele troço esfo- lava a pele toda se alguém caísse ali sem estar de calça comprida para se proteger. Mas, para os traseiros, ainda era melhor que a madeira dura onde tinham que ficar sentados até o final da reunião de todas as turmas da escola. Andrew e Bola já tinham conquistado o privilégio das cadeiras de pés tubulares e encosto de plástico que ficavam no fundo do ginásio para os alunos das últimas séries.
Lá na frente, virado para os alunos, havia um daqueles velhos púlpitos de madeira e, junto dele, estava a diretora, a sra. Shawcross. O pai de Bola, Colin “Pombinho” Wall, veio ocupar o seu lugar ao lado dela. Era um su- jeito muito alto, com uma testa larga, entradas pronunciadas e um andar que pedia para ser imitado: saltitando mais que o necessário para se deslo- car para a frente, com os braços bem colados ao corpo. Todos o chamavam de Pombinho por causa da sua célebre mania de vigiar, esvoaçando feito um pombo, os escaninhos que ficavam junto à porta do seu escritório, zelando para que estivessem sempre na mais perfeita ordem. As folhas de chamada eram depositadas em alguns deles depois de prontas, enquanto outras eram remetidas a departamentos específicos. “Veja lá se não vai pôr isso no escaninho errado, Ailsa!” “Não deixe a folha pendurada desse jeito ou ela vai acabar caindo, Kevin!” “Cuidado, garota! Pegue isso do chão e me dê aqui. Essa folha tem que ficar nesse escaninho!”
E até os outros professores acabaram chamando os tais escaninhos de “pombal”. Todos achavam que eles faziam isso para deixar claro que não eram como Pombinho.
— Cheguem para lá, cheguem para lá — disse o sr. Meacher, professor de marcenaria. Isto porque Andrew e Bola tinham deixado uma cadeira vazia entre eles e Kevin Cooper.
Pombinho tomou o seu lugar atrás do púlpito. Os alunos não se aquie- taram tão depressa quanto teriam feito se fosse a diretora. No exato mo- mento em que a última voz se calou, uma das portas duplas do lado direito se abriu, e Gaia entrou no ginásio.
Deu uma olhada ao seu redor (Andrew se permitiu virar para vê-la, já que metade dos presentes estava fazendo o mesmo. Ela estava atrasada, não conhecia quase ninguém, era linda e, afinal, era apenas Pombinho que estava falando) e, com passos rápidos, mas sem correr (porque, como Bola, ela tinha o dom da confiança), foi para trás dos alunos já instalados. A essa altura, Andrew já não podia se virar para continuar olhando, mas uma ideia lhe passou pela cabeça com tamanha força que os seus ouvidos chegaram a zumbir: ao obedecer à ordem do sr. Meacher, ele tinha deixa- do um lugar vago bem ao seu lado.
Ouviu uns passos leves e rápidos que se aproximavam e, de repente, ali estava ela. Veio sentar exatamente ao seu lado. Empurrou um pouco a cadeira, o corpo esbarrando no dele. As narinas de Andrew captaram um ligeiro perfume. Todo o lado esquerdo do seu corpo ardia com a consciência da presença dela, e o garoto ficou feliz da vida porque jus- tamente daquele lado o seu rosto tinha menos espinhas que do outro. Nunca tinha estado assim tão perto de Gaia e ficou se perguntando se teria coragem de olhar para ela, de dar algum sinal de que a reconhecia. Logo, porém, concluiu que tinha ficado paralisado por tanto tempo que já não dava para fazer isso de uma forma natural.
Coçou a têmpora esquerda para esconder o rosto. Revirou então os olhos e olhou para aquelas mãos juntas, pousadas no colo da garota. As unhas eram curtas, limpas e sem esmalte. Num dos dedos mindinhos, ela tinha um anelzinho de prata.
Discretamente, Bola lhe deu uma cotovelada.
— E por último... — disse Pombinho, e Andrew percebeu que já tinha ouvido o professor dizer aquelas palavras duas vezes. E que a quietude que reinava no ginásio tinha se tornado um sólido silêncio: todo o movimento havia cessado, e o ar ficou impregnado de curiosidade, animação e em- baraço.
— E por último... — repetiu Pombinho, e a sua voz tremeu sem que ele pudesse controlá-la. — Tenho uma notícia... Uma notícia muito triste para lhes dar. O sr. Fairbrother... que foi treinador da nossa tão... vitoriosa equipe feminina de remo durante os últimos dois anos... — Nesse ponto, ele como que engasgou, e passou uma das mãos pelos olhos. —...morreu...
Pombinho Wall estava chorando diante de todos. A sua careca cheia de pro- tuberâncias pendeu para a frente. Ouviram-se, simultaneamente, murmúrios de espanto e risinhos pela plateia, e muitos rostos se viraram para Bola, que continuou ali sentado, com um ar sublime de quem não tinha nada a ver com aquilo. Parecia um tanto intrigado, mas, a não ser por isso, estava impassível.
— ...morreu... — disse Pombinho, soluçando, e a diretora se levantou, parecendo aborrecida.
— ...morreu... ontem à noite.
De repente, um som estridente brotou de algum lugar lá no meio das cadeiras do fundo do ginásio. — Quem riu? — rosnou Pombinho, e o ar ali dentro chegou a estalar de tanta tensão. — COMO SE ATREVE?! Quem foi a menina que riu? Quem foi?
O sr. Meacher já estava de pé, gesticulando furioso para alguém no meio da fileira bem atrás de Andrew e Bola. A cadeira de Andrew balan- çou novamente porque Gaia tinha se virado, como todos os demais, para ver o que estava acontecendo. Andrew tinha a impressão de que o seu cor- po inteiro era agora hipersensitivo: dava para sentir que o corpo de Gaia estava meio debruçado na sua direção. Caso se virasse para o outro lado, o seu peito esbarraria no dela.
— Quem foi que riu? — repetiu Pombinho, erguendo-se absurdamente na ponta dos pés, como se pudesse descobrir o culpado lá do lugar onde estava. Meacher esbravejava e gesticulava febrilmente dirigindo-se à pes- soa que decidira acusar.
— Quem é, sr. Meacher? — gritou Pombinho.
O professor pareceu relutar em responder. Não estava conseguindo convencer o culpado a se levantar da cadeira. Mas, como Pombinho já dava sinais de que ia sair lá da frente para investigar pessoalmente, Krystal Weedon se pôs de pé de um salto, inteiramente vermelha, e foi saindo da fileira de cadeiras onde estava.
— Passe no meu escritório assim que terminarmos aqui — gritou Pom- binho. — É absolutamente lamentável!
Uma completa falta de respeito! Saia já daqui!
Mas Krystal parou na ponta da fila de cadeiras, ergueu o dedo médio para Pombinho e berrou:
— FIZ NADA NÃO, SEU BABACA!
Por todo lado ouviram-se risos e murmúrios excitados. Os professores tentavam em vão impor silêncio aos alunos, e um ou dois deles chegaram mesmo a se levantar, procurando intimidar as turmas pelas quais eram responsáveis.
As portas duplas se fecharam atrás de Krystal e do sr. Meacher.
— Quietos! — gritou a diretora, e um silêncio precário, cheio de sus- surros e movimentos, voltou a se instalar no ginásio. Bola olhava fixo para a frente, e, pela primeira vez, havia um quê de forçado naquela indiferen- ça e um ligeiro rubor na sua pele.
Andrew sentiu Gaia se endireitando na cadeira. Armou-se de coragem, olhou para o lado esquerdo e sorriu. Ela retribuiu o seu sorriso.
VII
Embora a delicatéssen de Pagford só abrisse às nove e meia, Howard Mollison já tinha chegado ao local. Era um homem de sessenta e quatro anos, de uma obesidade extravagante. A barriga avantajada formava uma prega que lhe caía diante das coxas e, assim que batia os olhos nele, a maioria das pessoas logo pensava no seu pênis: quando o teria visto pela última vez, como conseguia lavá-lo, como conseguia realizar qualquer dos atos para os quais serve o pênis? Em parte porque o seu porte físico provo- cava esse tipo de pensamento, em parte por causa da sua baixa tolerância a brincadeiras, Howard conseguia deixar as pessoas sem jeito e desarmá-las quase na mesma medida. Talvez por isso fosse tão comum os fregueses comprarem mais do que pretendiam na primeira visita que faziam à loja. Trabalhando, Howard conversava o tempo todo, enquanto a mão de dedos curtos ia acionando o cortador de frios para lá e para cá, e as fatias fininhas e sedosas de presunto iam caindo no celofane colocado ali para recebê-las, com os olhos redondos e azuis sempre prontos para uma piscadela, a papada balançando com o riso fácil. Ele tinha idealizado um uniforme de trabalho: camisa branca, avental de lona verde-escuro, calças de veludo e um daqueles chapéus estilo Sherlock Holmes no qual havia enfiado várias moscas de pescaria. Se algum dia o tal chapéu tinha sido uma brincadeira, há tempos que deixara de ser: toda manhã, antes de abrir a loja, ele o posicionava com a maior precisão sobre os bastos cachos grisalhos com o auxílio de um espelhinho instalado no banheiro dos funcionários.
Para Howard, era sempre um prazer abrir a delicatéssen de manhã. Ado- rava circular pela loja vazia, numa hora em que só se ouvia o barulhinho constante das geladeiras. Deliciava-se em ir trazendo tudo de volta à vida — acender as luzes, subir as persianas, tirar as tampas para deixar à mostra os tesouros do balcão-frigorífico: as pálidas alcachofras de um verde-acin- zentado, as azeitonas pretas como ônix, os tomates secos enroscados como cavalos-marinhos vermelhos boiando naquele azeite temperado com ervas.


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